Seu guia brasileiro exclusivo na Europa Oriental

30.7.12

Arte salvadora

A cidade portuária de Burgas, a antiga Pyrgos grega, onde foi perpetrado, dia 18 de julho passado, um sangrento atentado terrorista visando turistas israelenses, foi num passado não muito distante um importante centro comercial cosmopolita que reuniu gregos, búlgaros, turcos, armênios e ciganos, e que também contou com uma significativa comunidade judaica.

Testemunho da presença dos judeus em Burgas é uma imponente sinagoga, construída em 1909 e arquitetada pelo italiano Ricardo Toscani, numa rua central da cidade.

À diferença do destino de outras sinagogas no território búlgaro, que se transformaram em ruínas, a de Burgas teve a sorte de abrigar, em 1966, uma galeria de arte. Tal insólito fato, que garantiu e tem garantido até hoje sua boa manutenção, foi naturalmente favorecido pela emigração massiva da comunidade judaica búlgara para a Palestina logo após o término da II Grande Guerra.

No dia 7 de julho, ao visitar a cidade no calor do verão balcânico, hesitei entrar na galeria. Atravessei os seus umbrais e me dirigi ao guichê, decorado com cartões que reproduziam obras de arte cristãs-ortodoxas do acervo, para comprar o bilhete de entrada. Dominado por uma estranha sensação, uma náusea que se insinuou talvez bobamente, desisti e decidi deixar o prédio, lançando antes um olhar para o salão do térreo, onde um piano de cauda aguardava um concerto, e para os degraus que sinuosos davam acesso ao andar de cima.

Era como se houvesse sido acometido por uma vergonha diante de todos aqueles que, no passado, freqüentaram a sinagoga enquanto sinagoga, e agora eu manchasse sua memória. Não deveria entretanto alegrar-me com o fato de o prédio ter sido preservado? Algo, porém, impediu-me de ali entrar.

27.6.11

Oisiovici

Em fevereiro de 2011 tive o prazer de guiar o baiano Levi Oisiovici pelos principais locais da herança judaica em Bucareste, antes de sua viagem a Iasi, cidade de seus antepassados. Lá ele conseguiu localizar túmulos de parentes e até mesmo a casa onde morou sua família antes de se mudar para o Brasil em 1937. 

Em Bucareste, ele também se reuniu com membros da comunidade judaica local e se encontrou com um primo de cuja existência soube há poucos anos. Embora a Romênia tenha se tornado sua nova paixão, a paixão mais antiga de Levi são os curiós que ele cria com atenção e carinho em seu viveiro de Campinas.

26.6.11

Fantasmas de tijolo

No início de março de 2011 voltei a Czernowitz. O alfabeto cirílico, as marcas da União Soviética no quotidiano, visíveis em automóveis e interfones, a preocupação do povo sofrido em se agitar para ter o que comer no dia seguinte - tudo isso contrasta com a arquitetura do centro da cidade, heranças austríaca e romena, como se aquele cenário não tivesse absolutamente nada a ver com a peça que está sendo ora representada.

Fora a minoria romena, que deplora ainda hoje, em surdina, a perda da Bucovina setentrional e sua capital Czernowitz para a então República Socialista Soviética da Ucrânia no fim da II Guerra Mundial, o resto da população não parece estar consciente - e deveria estar? - de habitar lugares que outrora constituíam talvez a mais cosmopolita das cidades do Império Austro-Húngaro, de inigualável efervescência cultural.

Encontrei a Grande Sinagoga [foto acima], construída na primeira metade do século XIX em estilo típico da Galícia, no centro do antigo bairro judaico, na atual rua Henry Barbusse, albergando um ateliê de portas e janelas e outros pequenos negócios em seu quintal, como por exemplo o comércio de cruzes para cemitérios. O atual proprietário parece estar tratando bem do imóvel na medida do possível, tendo inclusive mantido uma inscrição em hebraico descoberta por cima da entrada principal. Desde 1865, quando o bairro judaico foi consumido por um incêndio, a sinagoga gerou várias lendas a respeito de seu poder miraculoso ao sair ilesa em meio às labaredas.

Atrás dela encontram-se as ruínas de um hospital judaico [foto ao lado] construído na década de 1930 graças à doação do famoso tenor judeu-alemão Joseph Schmidt, nascido na Bucovina em 1904.

10.3.11

Em Kamenets da Podólia

Kamenets da Podólia (Кам’янець-Подільський em ucraniano, Камене́ц-Подо́льский em russo, Kamieniec Podolski em polonês, Cameniţa Podoliei em romeno, Kamaniçe em turco, Camenecium em latim, Kamenyeck-Podolszk em  húngaro, קאָמענעץ em iídiche) é uma cidade hoje de quase 100 mil habitantes. Seu coração, entretanto, se restringe a uma pequena área determinada por um desenho em forma de ômega que o rio Smotrych imprime ao relevo, formando uma garganta de 40 metros de profundidade. 

Embora mais da metade do centro histórico tenha sido destruído durante os embates da II Guerra Mundial, a cidade ainda tem muito a oferecer, sobretudo do ponto de vista arquitetônico, do seu movimentado passado de bastião oriental do Cristianismo, em que procurou deter o avanço dos mongóis, na Idade Média e, mais tarde, dos tártaros e dos turcos otomanos, estes últimos tendo capturado e dominado a cidade nas últimas décadas do século XVII - deixando, entre marcas diversas, um minarete colado à catedral católica [foto]. 

Judeus, armênios, poloneses e ucranianos, dentre outros povos, marcaram a sua paisagem e o seu desenvolvimento, conferindo-lhe um caráter multiétnico até a II Guerra Mundial, quando a cidade se deparou com o extermínio da população judaica por parte dos nazistas - o cemitério israelita local comporta uma vala comum daquela época - e com a deportação de poloneses e ucranianos por parte dos russos.

No início do mês de março, faz muito frio na cidade, um frio umedecido pelas águas do rio e endurecido pelas pedras centenárias, por cima das quais, apesar do gelo e da neve, parece que ainda se pode ouvir o escorrer de todo o sangue vertido no passado. Enfrentando um cortante vento gelado, o excelente guia Maxim me mostrou sinteticamente a cidade medieval, deixando a fortaleza para uma ocasião de temperaturas mais altas. Terminamos nosso passeio bebendo chá e comendo panquecas recheadas com sementes de papoula e com cereja num restaurante - que funciona no prédio da Sinagoga dos Alfaiates, única que restou em pé em Kamenets [foto], ao lado de um bastião da muralha medieval que dá para o rio.

27.1.11

Mayn shtetele Soroke

Soroca (Сороки em russo, Сороки em ucraniano, Soroki em polonês, םאָראָקע em iídiche) é capital de distrito homônimo e porto no rio Dniester, na atual República Moldova. A primeira referência documental à localidade data de 1499. Foi sede de uma das mais antigas comunidades judaicas da Bessarábia. Os mais antigos túmulos judaicos são do século XVI. A sinagoga principal foi construída em 1775. Em 1772, uma dúzia de famílias judias (de um total de 170 famílias), vivia em Soroca.

Situada numa das áreas mais férteis do mundo, de tchernoziom, Soroca - que passou a pertencer à Rússia em 1812 - tornou-se um centro de rápido crescimento dos assentamentos judaicos desde a criação das primeiras colônias agrícolas judaicas em 1836. Em 1817, 157 famílias judias viviam em Soroca, em 1847 havia 343; em 1864 havia 4135 e, em 1897, havia 8783 (representando 57% da população). Considerada em 1861 um dos principais centros de atividade agrícola judaica na Rússia, Soroca e seus assentamentos agrícolas periféricos produziam tabaco, uvas e diversas outras frutas.

Em 1900, no auge da vida judaica em Soroca, a cidade contava com 17 sinagogas. A emigração, porém, principalmente para os Estados Unidos e Argentina, começou com a aprovação das leis restritivas de maio de 1882 do tzar Alexandre III e com as dificuldades econômicas resultantes. Em 1930, a cidade tinha 5462 judeus (36% da população).


Quando as forças alemãs e romenas entraram em Soroca em julho de 1941, iniciou-se a aniquilação sistemática dos judeus. Um campo de concentração foi criado nas adjacências, em Vertujeni, onde 26 mil judeus foram presos. De setembro até o final de dezembro de 1941, os sobreviventes foram deportados a pé para campos na Transnístria. Muitos foram mortos ou morreram de fome e exaustão durante o caminho. Poucos sobreviveram à guerra.

Estima-se que, após a guerra, talvez houvesse 1000 judeus em Soroca. Cerca de 200 judeus viviam lá em 2004.

Na década de 1990, Arkady Gendler, um nativo de Soroca, escreveu a canção Mayn shtetele Soroke.

Fonte: artigo Soroca, de autoria de Wolf Moskovich, publicado na YIVO.

20.1.11

Rússia a cores 100 anos atrás


O Boston Globe nos convida a olhar para o passado com uma extraordinária coleção de fotos coloridas tiradas na Rússia entre 1909 e 1912. Naqueles anos, o fotógrafo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii (1863-1944) realizou um levantamento fotográfico do Império Russo, com o apoio do czar Nicolau II. Ele usou uma câmera especial para capturar três imagens em preto e branco em sucessão rápida, utilizando filtros vermelho, verde e azul, que mais tarde podiam ser recombinadas e projetadas de maneira a revelar um colorido muitíssimo próximo da realidade. A alta qualidade das imagens, combinadas às cores brilhantes, faz quase duvidar que se trate de imagens de 100 anos. Confira aqui a coleção de fotos, disponibilizada pela Biblioteca do Congresso dos EUA, que adquiriu as placas de vidro originais em 1948. também imagens relacionadas à herança judaica local, como a de cima, retratando crianças judias com seu professor em Samarcanda (atual Uzbequistão), em torno de 1910.

Fonte: The Boston Globe

6.1.11

A Bessarábia de Ghivelder

Sugiro a leitura do interessante artigo Bessarábia, era uma terra doce e bonita..., de autoria de Zevi Ghivelder, publicado em 10/04/2010 no website da Sinagoga Adat Ischurum, cujo breve fragmento abaixo reproduzo. A versão integral pode ser acessada aqui.

A Bessarábia, hoje República Moldova, teve a pouca sorte de ter seu território de 34 mil quilômetros quadrados (pouco menos do que o estado de Alagoas), ladeado pelos rios Dniester e Prut, ou seja, localizado entre a Romênia e a Ucrânia, dois assumidos bastiões do anti-semitismo no leste europeu e que inclusive se aliaram aos nazistas durante a 2a Guerra Mundial. A presença judaica naquelas paragens, então chamada de Moldávia, é assinalada por volta do século 16. Os judeus se dedicavam ao pequeno comércio, mas, assim que alcançaram algum progresso em suas atividades, foram expulsos para a Galícia, na Polônia, e para a Podólia, no sudeste da Ucrânia. Em meados do século 18, os judeus tentaram novamente se radicar na Moldávia, tendo como principal ocupação a travessia de pessoas e cargas através do rio Dniester. Mais uma vez foram expulsos. Só retornaram no século seguinte, depois do conflito entre a Rússia e a Turquia. Como vencedor, o império russo anexou o território denominado Bessarábia. Em 1818, foi editado um decreto segundo o qual os judeus ficavam proibidos de possuir qualquer tipo de terra para fins de agricultura, mas podiam comerciar variadas mercadorias e operar moinhos de trigo. Um censo do ano anterior apontava a existência de cerca de 19 mil judeus na Bessarábia, correspondendo a 4,2% do total de seus habitantes.

20.12.10

Pousada em Draguseni

Nossa pousada em Draguseni foi objeto de um belo artigo publicado no número 107, edição de novembro de 2010, da renomada revista romena de arquitetura Igloo, assinado por Reka Tugui Rozsnyai, com fotografias de Serban Bonciocat, que pode ser acessado aqui. Abaixo, segue a tradução do artigo originalmente em romeno:
 
A moradia rural era sinônimo, até há pouco tempo, de tradição, com o perpetuamento de certos modelos consagrados. Tais modelos, aceitos por comunidades inteiras, eternizaram-se de uma geração para a outra sem inovações significativas, adaptando-se apenas às condições particulares de cada família. Recentemente, entretanto, o ambiente rural da Romênia tem conhecido uma transformação cada vez mais acelerada, uma época em que os modelos do passado vêm perdendo terreno em favor de exemplos alheios e, na maior parte das vezes, agressivos e estridentes. A maior parte dos habitantes do meio rural hoje preferem materiais modernos, como por exemplo o concreto, blocos de concreto, PVC, inox ou vidro, existindo porém casos isolados que remetem ao passado, assim como aconteceu com o brasileiro Fernando Klabin, que construiu, em letra e espírito, uma casa tradicional no encantador vilarejo de Draguseni, na província de Suceava.
  
Tudo partiu do desejo de oferecer aos visitantes da Moldávia a mais autêntica atmosfera possível, e do fascínio que Fernando Klabin tem pelo folclore romeno. O lugar não foi escolhido por acaso: sua esposa, oriunda de Suceava, detinha um vasto lote de terra em Draguseni, que no passado pertencera a seus avós paternos. De posse do terreno, o casal Klabin decidiu construir ali uma casa, exatamente como outrora costumavam fazer todos os habitantes da região. Como modelo para a nova construção, foi escolhida uma residência das vizinhanças, de proporções harmoniosas e detalhes notáveis. Para o exterior, eles seguiram de perto as suas proporções e a sua estética e, no que toca ao interior, apelou-se à compartimentação clássica da casa tradicional. Assim, a habitação apresenta um longo aposento no meio, do qual se acessam diretamente os quartos situados em ambos os lados. Como o telhado da parte de trás da casa é inclinado, exatamente como era a praxe de outrora, na parte de dentro foi possível decorar outros dois quartos. A área do aposento central ficou aberta até o fundo, onde foi instalada uma pequena cozinha de apoio para os turistas. A única modificação imposta à repartição clássica do espaço foi o corredor de acesso aos banheiros, para que eles não comunicassem diretamente com a parte central da casa. Os banheiros são extremamente modernos, no intuito de oferecer aos turistas todo o conforto necessário. Ademais, tendo em vista que o banheiro tradicionalmente não fazia parte da habitação rural, esse espaço não tinha como ser organizado de maneira tradicional.

Não só a aparência da casa de Draguseni respeita a tradição, como também sua estrutura e seu material. Ela foi inteiramente construída com materiais e técnicas tradicionais, algo nada simples de realizar, pois, assim como afirma o proprietário, o processo “envolveu uma batalha prolongada com a mentalidade das pessoas”. Os habitantes locais não eram capazes de compreender por que alguém desejaria construir uma casa assim como faziam seus avós, justamente hoje em dia, com inúmeras alternativas à mão. Só depois de terem substituído umas três equipes, eles conseguiram concluir o projeto, com toda a estrutura de vigas de madeira dispostas em dois estratos e recheada com uma mistura de argila com palha. Outro material que criou problemas foi a telha de madeira para o telhado da casa. Após buscas prolongadas, eles conseguiram encontrar em Bogdanesti, um vilarejo das redondezas, uma viúva que ainda mantinha as telhas guardadas por seu marido há aproximadamente 20 anos. No que concerne ao sistema de aquecimento, a casa foi dotada com fornos tradicionais de lenha, construídos por um artesão do vilarejo de Radaseni, que, por sua vez, foi difícil de encontrar. Para a sua execução, os proprietários contaram com os conselhos de uma amiga do Museu do Vilarejo de Suceava, que lhes desenhou a forma e os nichos. Todos os elementos em madeira, inclusive a varanda, cujo desenho foi inspirado no da casa dos avós da Senhora Klabin, foram executados, num único inverno, por um artesão carpinteiro de Suceava.

A intenção do proprietário da casa era a de essencialmente criar um espaço especial apenas por meio do modo de construir, para em seguida populá-lo com diversos objetos destinados a evocar a História local. Cada objeto da casa tem sua própria história, todos tendo sido reunidos ao longo do tempo, seja junto a parentes ou amigos, seja adquiridos em diversas feiras. Eles são complementados, de maneira feliz, por alguns elementos de madeira resgatados da casa dos avós, elementos que decoravam outrora a varanda e as janelas da antiga casa, e que agora foram colocados do lado de dentro, por cima da porta de entrada e de algumas janelas. Cumpre lembrar o gesto do vizinho que, ao visitar pela primeira vez a casa camponesa do brasileiro, ofereceu ao casal Klabin alguma peças antigas de seu patrimônio. Assim, não surpreende o fato de que os moradores locais tenham se acostumado a chamar esse lugar de “museu”.

As mesmas pessoas que no início punham obstáculos ao processo de resgate da arquitetura camponesa empreendido pelo casal Klabin em Draguseni ficaram encantadas com o resultado ao verem a casa concluída, o que nos garante ainda existir esperança para a imagem do vilarejo tradicional romeno.

17.12.10

Vala comum perto de Iasi

Arqueólogos descobriram uma vala comum com corpos de judeus mortos por tropas romenas durante a Segunda Guerra Mundial, disse o Instituto Elie Wiesel.

Citando testemunhas, o instituto disse que mais de cem judeus - homens, mulheres e crianças - foram sepultados no local, numa floresta próxima à aldeia de Popricani, no nordeste romeno.

Uma das testemunhas viu os judeus sendo alvejados, porque os soldados acharam que ele próprio fosse judeu e pretendiam alvejá-lo também, disse a filial romena do Instituto Elie Wiesel em nota. Ele só foi poupado quando os soldados se convenceram de que era cristão ortodoxo.

Wiesel, ganhador do Nobel da Paz, liderou uma comissão internacional que declarou em 2004 que entre 280 mil e 380 mil judeus romenos e ucranianos foram mortos na Romênia e em áreas controladas pelo governo do país durante a Segunda Guerra Mundial. A Romênia foi aliada da Alemanha nazista no início do conflito.

Muitos foram mortos em pogroms como o de 1941, que vitimou quase 15 mil judeus na cidade de Iasi, perto da vala recém-descoberta. Outros morreram em campos de trabalho forçado ou trens da morte.

Os arqueólogos já encontraram 16 corpos, segundo os promotores que estão investigando o caso. Esse é o segundo local desse tipo descoberto desde a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, 311 corpos foram exumados de três valas comuns em Stanca Roznovanu, na mesma região.

A Romênia só recentemente começou a discutir o extermínio de judeus. Até 2003, o país não admitia que isso houvesse ocorrido.

Depois que a Romênia trocou de lado na guerra, em 1944, o regime comunista pouco fez para investigar as mortes, e os governos pós-1989 também mantiveram sigilo sobre o assunto.

A Romênia tinha 750 mil judeus antes da guerra. Hoje restam no máximo 10 mil.

Fonte: artigo Romênia acha vala comum com corpos de judeus mortos na II Guerra, publicado pelo G1 Portal de Notícias da Globo em 05/11/2010.

16.12.10

Delicatéssen romenas

Na edição no. 134 (dezembro de 2010) da revista Saveur acabou de ser publicado um artigo assinado por David Sax, com fotos de Landon Nordeman, sob o título Roots of Deli - no qual o autor, em Budapeste e Bucareste, sai em busca das origens autênticas de comida judaica de hoje.

Fernando também contribuiu para este trabalho, orientando e apoiando Sax e Nordeman através de sua jornada gastronômica pela Romênia. Bom apetite!

7.12.10

O imaginado e o real

O boletim no. 43 (outubro de 2010) do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro publicou o artigo, tema da capa daquela edição, intitulado Bessarábia - Havia o cenário imaginado, fomos à procura do cenário real, de autoria da psicanalista Tatiana Serebrenic, quem tive o prazer de guiar, juntamente com seu marido Jayme Serebrenic, em maio de 2010, pela Romênia e República Moldova.

Seu relato sincero, tanto objetivo como subjetivo, denota a inevitável complexidade na abordagem de uma realidade tão íntima do coração e tão distante no tempo e na geografia. A dicotomia entre os relatos de família com sua descrição de um passado pitoresco e a realidade atual - fruto de indizíveis crueldades históricas - acaba se revelando agridocemente enriquecedora para o observador perspicaz.

17.11.10

Komor e Dezsö

A mais agradável descoberta de Târgu Mures é o que me atreveria a chamar de versão magiar do Palau de la Música Catalana (1908): trata-se do Palácio da Cultura (Palatul Culturii, Kultúrpalota), edifício construído entre 1911 e 1913 - sob encomenda do prefeito György Bernády (1864-1938), que marcou indelevelmente a história da cidade com seu empreendedorismo.

O fabuloso Palácio foi concebido por dois dos maiores arquitetos húngaros da época: Marcell Komor (1868-1944) e Jakab Dezsö (1864-1932), discípulos do assim chamado Gaudí húngaro, o renomado arquiteto Ödön Lechner (1845-1914), um dos primeiros representantes da corrente Szecesszió que, embora claramente ligada à Art Nouveau e Jugendstil, em voga por toda a Europa, permitiu-se enriquecer-se, no então espaço geográfico da Hungria, com a inclusão de elementos folclóricos locais.

Outra interessante descoberta foi constatar que ambos os arquitetos - que conceberam também, sempre a mando de Bernády, o não menos fantástico Palácio da Prefeitura de Târgu Mures (1907), além de haverem assinado residências, sinagogas e diversos edifícios públicos que embelezam até hoje cidades como Budapeste, Viena, Oradea, Timisoara, Bratislava, Szeged e Суботица - nasceram no seio de famílias judaicas húngaras. Marcell Komor, filho do rabino Salamon Kohn (1828-1886), foi vítima do Holocausto.

Fotos: do autor.

16.11.10

Târgu Mures

Ao visitar a cidade transilvana de Târgu Mures (Marosvásárhely, Neumarkt), não pude deixar de admirar seu centro antigo, que ainda revela as belas marcas da corrente Art Nouveau - em voga, numa abordagem muito própria, entre os arquitetos húngaros do início do século XX - promovida nos anos imediatamente anteriores à I Guerra Mundial por seu prefeito visionário György Bernády.

Parte das importantes transformações urbanísticas que a cidade sofreu naquela época, e que haveriam de apagar sua feição ainda rural, constitui a Grande Sinagoga, por muitos considerada o mais belo templo israelita de toda a Transilvânia. Inaugurado em 1900, o edifício foi construído conforme os planos em estilo eclético do arquiteto vienense Jakob Gärtner (1861-1921).

Em 1944, sob o regime ditatorial húngaro que vigorou de 1940 até aquele ano na Transilvânia Setentrional, cerca de 7000 judeus da cidade - 15% da população - foram concentrados em guetos e em seguida deportados para a morte em Auschwitz. Ao todo, 150.000 judeus foram deportados de toda a Transilvânia Setentrional. Hoje em dia, na atual província de Mures, da qual Târgu Mures é a capital, os judeus não passam de 200.

Em 2003, as autoridades locais romenas inauguraram, numa praça central da cidade, um monumento em memória àquelas vítimas. A estátua, representando uma família abraçada, foi realizada por um dos sobreviventes da tragédia: Izsák Martin.

Fotos: do autor.

14.9.10

Mein shtetele Belz

A cidade de Bălţi (Bielce, Бельцы, Бэлць, Бєльці, בעלץ) aparece em documentos do século XV como um importante centro de comércio de cavalos: não é à toa que seu primeiro brasão exibia uma cabeça de cavalo. Aos poucos, a cidade se torna também um centro de artesãos - ferreiros, seleiros, segeiros, peleteiros. O Império Russo, que em 1812 incorpora a parte oriental da Moldávia, que passa a ser conhecida como Bessarábia, aumenta a autonomia administrativa da localidade que, uma vez ligada à rede ferroviária, se transforma num centro de coleta de cereais que são transportados para Odessa.

Devido ao desenvolvimento econômico gerado, juntam-se à população moldava numerosos russos, ucranianos e judeus. O número desses imigrantes continuou crescendo, especialmente depois da união da Bessarábia com a Romênia em 1918, por causa do afluxo de refugiados do outro lado do rio Dniester que fugiam da coletivização soviética, do Holodomor (1932-33) ou da polícia secreta do partido comunista soviético (NKVD).

Durante a II Grande Guerra, a cidade foi gravemente destruída e sofreu importantes deportações. Primeiro (1940-41), os soviéticos deportaram para o Cazaquistão e Sibéria padres e funcionários públicos moldavos que trabalhavam para o Estado romeno; em seguida (1941-44), romenos e alemães deportaram judeus - que constituíam pelo menos metade da população local e que foram confinados a um gueto - e cidadãos suspeitos de apoiarem o sistema soviético. As deportações soviéticas foram retomadas entre 1945 e 1954.

Durante o regime comunista, a cidade se transformou no mais importante centro industrial do norte da Moldávia, com uma população quase toda transplantada, formada por russos, ucranianos e camponeses moldavos.

Bălţi, que no passado foi melancolicamente evocada na famosa canção iídiche Mein shtetele Belz, de 1928, é hoje em dia a "capital setentrional" da República Moldova, sendo a segunda mais importante cidade do país e contando com uma população de quase 150 mil pessoas, das quais cerca de 400 formam a comunidade judaica local, atualmente liderada pelo Sr. Lev Bonder.

Foto (do autor): Jaime Serebrenic (SP) diante da única sinagoga restante em Bălţi, maio de 2010.

5.8.10

Gueto de Varsóvia

Minhas andanças pela capital polonesa no início de julho acabaram me levando à área em que se estendia o gueto. Numa grande praça junto à rua Zamenhof, circundada por blocos comunistas erguidos sobre os destroços amontoados das antigas casas dos judeus, vê-se o colossal monumento dedicado aos heróis do Gueto de Varsóvia, concebido pelo escultor Nathan Rappaport e inaugurado na década de 1980 pelas autoridades comunistas.

Na primavera de 1943, a insurreição do Gueto de Varsóvia foi brutalmente sufocada pelo exército nazista, que trucidou mais de 13 mil judeus durante a exitosa operação de aniquilamento dessa parte da cidade. A maioria dos 50 mil judeus restantes foram capturados e despachados para o inimaginável campo de extermínio de Treblinka.

Há quem diga que, por ironia, o material utilizado pelo escultor tenha sido previamente encomendado pelos nazistas, no intuito de construírem um monumento em homenagem à (malfadada) vitória alemã.

A poucos metros do trágico memorial, atrás de tapumes, vê-se a construção em andamento do ambicioso Museu da História dos Judeus Poloneses, que deverá abrir suas portas ao público em 2012.

Na praça que abriga o colosso de Rappaport, salpicada por pequenos monumentos em mármore negro que se estendem pelas ruas adjacentes e que comemoram, em polonês e hebraico, diferentes personalidades, lugares e momentos dessa história macabra, idosos gorduchos e bem-dispostos sentavam-se sossegados nos bancos sob o sol do fim-de-semana, enquanto moradores do bairro passeavam satisfeitos seus cachorros por cima dos escombros enterrados, por entre fantasmas cujos gritos lancinantes guiavam meus passos.

Fotos: do autor.

3.8.10

Dossiê Judeus

A edição número 58, de julho de 2010, da Revista de História da Biblioteca Nacional publicou um interessante "Dossiê Judeus no Brasil", constituído por artigos de diversos especialistas que versam sobre a rápida integração dos cristãos-novos vindos de Portugal no século XVI; os judeus expulsos do Recife, que acabaram fundando uma nova comunidade em Nova York; a restrita liberdade dos judeus e a manutenção de suas tradições durante o Império; e sobre o controle da entrada de estrangeiros no Brasil do Estado Novo, que classificava os judeus como imigrantes indesejáveis.

26.7.10

Salve a comida judaica

Nesse fim-de-semana tive o prazer de guiar por Bucareste e arredores o jornalista canadense David Sax (autor de Save the Deli, do lado esquerdo) e o fotógrafo estadunidense Landon Nordeman (à direita), que vieram registrar o patrimônio gastronômico da Romênia judaica.

Além de termos visitado locais ligados à herança judaica na capital romena, fomos a restaurantes e mercados populares, sempre atrás de fenômenos culinários tradicionais romenos que acabaram dando origem a hábitos alimentares profundamente enraizados no seio de comunidades judaicas formadas por emigrantes, sobretudo na América do Norte e do Sul.

O grande protagonista dessa viagem gastronômica foi o pastrami, iguaria romena levada pelos judeus romenos para o outro lado do Atlântico e transformada em delikatessen em renomados restaurantes de Nova York.

O ponto alto foi o banquete judaico-romeno que organizamos para nossos hóspedes na Fernando's Hideaway de Fierbinti, a 40km de Bucareste, sob a direção de Silvia Weiss, que oferece serviços de catering sob o nome de Silvita's Kitchen.

Foto: do autor.

23.7.10

Umschlagplatz

Minha família não tem raízes na Polônia, mas isso é irrelevante ao tocar o chão de Varsóvia. Sinto por debaixo dos pés como aquela terra fervilha, reproduzindo ainda, como um eco abafado, todos os passos e tombos daqueles que ali foram vítimas e instrumentos do horror, tão enigmático quanto inaceitável, da guerra.

Por um instante me pergunto para que recordar esse passado que não vivi e que não tem ligação direta comigo, se não seria melhor concentrar energia na direção de um futuro em que tais monstruosidades não venham mais a acontecer, mas a pergunta se esfarela e eu continuo caminhando estupefato pela área do antigo gueto [cujos limites encontram-se hoje marcados na calçada, conforme a foto], sem compreender o que procuro, convencido de jamais poder compreender a profundidade do sofrimento e a amplitude da carnificina que os monumentos evocam .

Um desses monumentos marca o lugar da Umschlagplatz, onde, sobretudo ao longo do verão de 1942, os nazistas reuniram cerca de 300 mil judeus poloneses e os deportaram de trem diretamente para as câmaras de morte de Treblinka.

Erguido em 1988, o monumento em mármore, cujo formato retangular sugere um vagão de carga, tem uma parede comprida em que estão inscritos vários prenomes judeus, de A a Z. No meio dela, uma fenda, larga o bastante para chamar a atenção, mas estreita o suficiente para não permitir a passagem de ninguém. Olho por ela, com a prudência medrosa de quem espreita o inferno, e o que se vê é uma árvore frondosa plantada exatamente na sua direção - árvore refresco inesperado de uma esperança muito difícil.

Fotos: do autor.

20.7.10

Os fantasmas de Varsóvia

Caminhar por Varsóvia é um estranho exercício. Não posso deixar de imaginar estar caminhando por cima de escombros, evocando a destruição provocada pelo exército alemão em 1944 após sufocar o Levante de Varsóvia. A mando do Führer, o impiedoso Verbrennungs- und Vernichtungskommando reduziu quase a cidade toda a ruínas.

Hoje, o pitoresco centro velho de Varsóvia é uma formidável reconstrução feita pelo Governo Comunista Polonês nos anos 50 do século passado, baseada sobretudo nas pinturas do veneziano Bernardo Bellotto, pintor da corte polonesa desde 1764, que a retratou mais em nome da estética do que da fidelidade urbanística.

Mesmo se quisesse me esquivar dos fantasmas da cidade, a cada esquina eles me interpelam com um monumento ou uma placa comemorativa, que remete o visitante ao cruel passado recente da II Guerra: a invasão alemã, os limites do gueto de 1940, o Levante do Gueto em 1943, o Levante de Varsóvia em 1944, a posterior destruição nazista e a invasão soviética.

A cidade, entretanto, fervilha viçosa ao som de Chopin, cujo bicentenário de nascimento é comemorado este ano, como se nada daquilo houvesse acontecido. O granito e o bronze dos monumentos registram silentes a memória torturante do passado. A cidade inteira, com toda a vida que nela circula, constitui um símbolo irrefutável da força de vontade do povo polonês. Caminhando porém por suas ruas e desviando das longas filas para comprar sorvete, alterno-me entre louvar esse orgulho e desabar aos prantos, pois sei que me movo no espaço de um antigo matadouro.

Fotos: do autor.

9.7.10

Varsóvia: cemitério israelita

No início de julho, tive a oportunidade de visitar o cemitério judaico da rua Okopowa, em Varsóvia. Conforme informações disponíveis no próprio cemitério, foi no fim do século XIV que os judeus começaram a vir para a cidade. Proibidos de ali morar entre 1527 e 1795, começaram em meados do século XVIII a se estabelecer em grande número na periferia da capital polonesa. A comunidade judaica local estabeleceu seu próprio cemitério em 1806. Até 1939, 150 mil sepultamentos haviam sido realizados nesse cemitério, que cobre uma área de 33,4 hectares.

Em consonância com a torturante história dessa cidade, o cemitério tem, além de numerosos monumentos dedicados às vítimas do Holocausto, uma imensa sepultura coletiva com os que pereceram no gueto de Varsóvia e uma zona repleta de túmulos simbólicos erguidos por parentes de vítimas jamais localizadas do Holocausto.

Uma das mais célebres personalidades ali sepultadas é Lazar Ludwik Zamenhof (1859-1917) - seu túmulo foi o primeiro a chamar-me a atenção com seu imponente mosaico representando a estrela verde, símbolo do Esperanto [ao lado]. O cemitério ainda atende a diminuta comunidade judaica local.

Fotos: do autor.