Seu guia brasileiro exclusivo na Europa Oriental

1.9.08

Pescador romeno de pérolas brasileiras

Leon Barg, filho de judeus romenos, nasceu no Recife e mora em Curitiba (onde conheceu Eva, com quem viria a se casar três anos depois) desde 1954. Ainda na capital pernambucana, aos 14 anos, comprou seu primeiro disco, com, em suas próprias palavras, “o primeiro cruzeiro que ganhei”. O disco era de Francisco Alves, mas Leon não tinha gramofone e o ouvia na casa de amigos. Em 1987 ele criou o selo Revivendo Músicas, que tem se dedicado a lançar em CD gravações da música brasileira da primeira metade do século XX, com destaque para as décadas de 30 e 40, os chamados “anos dourados” da nossa música popular. Hoje a coleção conta com 33 mil discos (66 mil títulos, já que os antigos 78 rpm tinham uma faixa de cada lado), é a base dos lançamentos do selo, e que está espalhada por vários cômodos e até um dos banheiros da sede da Revivendo. De cada disco, feitos à época de material quebradiço e cujas cópias apresentam por vezes defeitos, ele procura ter dois ou três exemplares, dizendo que “quem tem um, não tem nenhum”. Leon e sua equipe (Fabrício e Giovana) fazem os discos passar por um sistema de “limpeza” do som, a fim de recuperá-los e remasterizá-los para serem lançados em CD.

Por ajudar na compreensão da essência da nossa identidade cultural por meio da memória da canção popular é que o trabalho de Leon Barg e da Revivendo tem importância fundamental. Importância que cresce quando se leva em conta que a manutenção e a divulgação desse acervo vêm sendo feitas sem qualquer tipo de ajuda oficial, graças principalmente ao arrojo de um único indivíduo, que conta com suas duas filhas e seis funcionários, além de pequenas colaborações de amigos que Leon tem feito ao longo de suas andanças por um país que ele ajuda, com seu trabalho, a redescobrir.

Fonte: artigo O Pescador de Pérolas, publicado pela Carta Capital

30.8.08

Estabelecendo as fronteiras

Uma das primeiras dificuldades da pesquisa genealógica é localizar geograficamente a origem da família. Tendo sido a Europa Oriental continuamente palco de tantos conflitos militares, é comum que se instale certa confusão.

Considero que o mapa ao lado (clique nele para ampliá-lo) consegue esclarecer mais do que qualquer texto que procure estabelecer as fronteiras da Bessarábia, Moldávia e Bucovina.

O mapa apresentado corresponde integralmente ao território da Moldávia histórica, do tempo em que era um Principado, até o século XIX, quando, ao unir-se com a Valáquia, formou a Romênia.

O que está em azul faz parte, desde o fim da II Guerra, da Romênia (Moldávia e Bucovina meridional). O que está em rosa faz parte hoje da Ucrânia (Bucovina setentrional, Bessarábia setentrional, Herta e Budjak) e o que está em verde constitui o território da atual República Moldova.

Como se vê, a Bessarábia propriamente dita é formada pela zona verde e duas zonas de cor rosa, ao norte e ao sul, territórios desprendidos por Khrushchev da então RSS Moldova e transferidos para a RSS Ucrânia. A Bucovina (província austríaca entre 1775 e 1918) encontra-se hoje dividida ao meio entre Romênia e Ucrânia. A zona hachurada com verde corresponde à autoproclamada república separatista da Transnístria, zona de grande tensão geopolítica entre a Rússia e a OTAN, ao passo que a zona hachurada com rosa, atual parte do território ucraniano, corresponde à antiga RSS Autonôma Moldava (1924-1940), complexa manobra da geopolítica stalinista.

4.7.08

Judeus romenos maçons em Aracaju (2)

Outro romeno, comerciante de móveis em Aracaju, foi Maurício Stern, filho de Abraão Elias e Clara Stern, nascido em 17 de abril de 1896. Declarou-se de religião israelita, quando foi entrou para a Maçonaria [de Aracaju, na foto], em 13 de setembro de 1941, época em que os judeus sofriam grande perseguição dos niponazifascistas. Com Isaac Chapermann abriu a loja Mobiliaria Chic, para expor e vender móveis que fabricava, à eletricidade, à rua de João Pessoa, 119/121. A Mobiliaria Chic era anunciada como “a maior e a melhor do Estado.”

Maurício Stern morreu no Rio de Janeiro (Jacarepaguá), em 2 de fevereiro de 1973.

Fonte: Artigo Estrangeiros em Aracaju, do historiador Luiz Antônio Barreto, publicado em 09 de maio de 2005 pelo Portal Infonet.

Judeus romenos maçons em Aracaju

Saul Kaminsky, Elias e Marcos Roitman, Maurício Lerner, todos romenos, dominavam o ramo de móveis, com fabricação própria, ou vendendo produtos do Paraná e de Santa Catarina, considerados os melhores do Brasil.

Saul Kaminsky nasceu na Bessarábia, Romênia, em 16 de outubro de 1905. Casado com Lúcia Kaminsky, pai de Joel Kaminsky, nascido em Aracaju em 2 de abril de 1930, ingressou na Loja Cotinguiba [da Maçonaria de Aracaju] em 6 de outubro de 1934.

Marcos Roitman nasceu na mesma Bessarábia, na Romênia, em 25 de outubro de 1898, iniciando-se na Maçonaria já casado com Paulina Roitman, em 26 de setembro de 1940.

Elias Roitman [foto], procedente do mesmo lugar da Romênia, nascido em 8 de dezembro de 1905, entrou para a Loja Cotinguiba em 21 de outubro de 1939.

Marcos Roitman era proprietário de A Mobiliadora, fábrica de móveis situada na rua de João Pessoa 29, enquanto Elias Roitman sucedia Isaac Udermann, à frente da Casa Colombo, nos endereços novos de rua de João Pessoa 73 e 199 (antes era na mesma rua, no número 81). Era uma fábrica movida a eletricidade, como anunciava.

Maurício Lerner nasceu na Romênia em 28 de agosto de 1913, era solteiro quando iniciou-se entre os maçons, em 13 de janeiro de 1940. Comerciante, era sócio de José Chapermann na Mobiliária Brasil, na rua Inácio Barbosa 156, que representava em Sergipe os colchões Probel.

Fonte: Artigo Estrangeiros em Aracaju, do historiador Luiz Antônio Barreto, publicado em 09 de maio de 2005 pelo Portal Infonet.

3.7.08

Bitelman

Transcrevo, a seguir, fragmentos do artigo Viagem à terra de meu pai, de autoria de Flavio Mendes Bitelman, publicado no número 16, ano IV, da Revista 18, de junho/julho/agosto de 2006, do Centro da Cultura Judaica. Na foto, a família Bitelman em Kishinev, em 1926.
De tanto ver os nomes de ancestrais da Bessarábia, a idéia de fazer uma viagem ao passado e conhecer a terra de meus quatro avós e de meu pai foi se enraizando em mim. Uma viagem à região – a Bessarábia foi disputada pela Rússia e pela Romênia, hoje é parte da Moldova – vinha sendo ensaiada desde 2002. O filme Uma Vida Iluminada, baseado no romance Tudo se ilumina, do norte-americano Jonathan Safran Foer, a que assisti há alguns meses, deu o impulso que faltava. Umas três semanas depois de assistir ao filme recebia um formulário do governo da Moldova, registrado e carimbado, com um convite para visitar o país.

Ao chegar a Kishinev, depois das burocracias de rotina, consegui meu visto e passei pela fila dos passaportes. Lá fora, os primos Ilusha e Senia aguardavam. Nos reconhecemos imediatamente e nos abraçamos. Foi muito emocionante. Antes mesmo de irmos ao hotel, eles nos guiaram pelas ruas de Kishinev e foram me mostrar a rua onde meu pai morava. O número exato, ninguém mais sabia, mas sentir a rua onde meu pai brincava, visitava seus vizinhos, passeava, ia trabalhar, embaixo de copas de árvores frondosas, foi muito forte. À noite fomos jantar num delicioso restaurante. O mais importante era nos conhecermos melhor, conversar, trocar presentes, ver fotos da família – e também beber o conhaque e o excelente vinho da própria Moldova.

No dia seguinte logo cedo, após o café, nosso destino foi o cemitério de Kishinev, local muito bonito e agradável, com muitas arvores, uma zeladora simpática e competente que logo procurou um grande livro onde constam os nomes das pessoas sepultadas ali. Ela encontrou dois Bitelmans: um era Michel Bitelman, tio de meu pai, falecido em 1912, de quem meu pai recebeu o nome para homenageá-lo e perpetuar sua memória. E o outro túmulo era de Sura, filha de Michel, falecida em 1939. Levei comigo um saco plástico impermeável com fecho, e peguei um pouco de terra do túmulo de meu tio-avô, para trazer ao túmulo de meu pai no Brasil, e aos túmulos de seus irmãos e pais.

Vimos também o túmulo de um Kaushansky. Minha avó paterna e a avó paterna de Ilusha, que eram irmãs, tinham este mesmo sobrenome quando solteiras: Kaushansky. E visitamos também a outra avó de Ilusha, Sura Sobel, mãe da mãe dele.

O dia seguinte foi dedicado a uma viagem mais longa: fomos na direção de Yedenetz, hoje conhecida como Edinet. Meu avô materno Favich Malay, que no Brasil se tornou Paulo Mendes, nasceu em Yedenetz – e, por coincidência, o pai do meu cunhado, Jaime Serebrenic, também. Yedenetz era um autêntico shtetl na época em que meu avô materno a deixou, ao contrário de Kishinev, que foi a capital da Bessarábia e havia pertencido à Rússia por muitos e muitos anos e passou a fazer parte da Romênia em 1918, ao fim da 1ª Guerra Mundial. Hoje, Yedenetz já é uma cidade pequena com uns 30.000 habitantes, mas com cara de cidade. Como em Kishinev, resolvemos começar nossa visita pelo cemitério, mas aqui o cemitério não tinha nenhuma informação escrita sobre os túmulos e foi impossível achar quaisquer vestígios de parentes mortos. Uma parte do cemitério era mais nova, com túmulos bem organizados, mas, à medida que nos distanciávamos, os túmulos iam ficando mais antigos, em piores graus de conservação, até chegarmos a túmulos totalmente tomados pela vegetação, e com lápides tombadas e ilegíveis.

Minha avó materna Frida Fainbaum nasceu em Seccuron, hoje Secureni, a 13 quilômetros de Yedenetz, ao norte da Moldova, junto à fronteira com a Ucrânia [nota: Secureni fica hoje do outro lado da fronteira, em território ucraniano]. Não conseguimos chegar lá, pois queria ainda visitar Orghei, onde meu bisavô Avrum Moshe Bitelman nasceu. Seguimos viagem e paramos para almoçar em Beltz, hoje Balti. Mas Beltz também, de shtetl não tem mais nada: tornou-se a segunda ou terceira maior cidade da Moldova, com muitos prédios altos e indústrias. Continuamos até Orghei (ou Orhei), fomos ao cemitério, fotografamos, mas não encontramos nenhum túmulo de parente conhecido. Chegamos tarde de volta a Kishinev.

De um pequeno projeto de fazer a árvore genealógica da minha família foi se desenvolvendo em mim o desejo de conhecer a terra de meu pai. Conhecer o passado de nossa família, os lugares onde meu pai brincava e trabalhava, de onde saiu devido à pobreza da época e acabou chegando ao Brasil que tão bem acolheu a ele e a todos nós, fechou um ciclo dentro de mim. Infelizmente, meu querido pai Michel Bitelman faleceu em 1995, aos 81 anos de idade, e não pôde me acompanhar nesta viagem. Teria sido a realização de um grande sonho visitar a Bessarábia, e em especial Kishinev, na companhia dele, ouvindo seus comentários e vivenciando a sua felicidade em rever a terra natal. Em 1975, quando ele visitou a Rússia, o clima político ainda não era favorável e não teve a oportunidade de ir até a Bessarábia. Mas hoje, em 2006, eu realizei seu sonho e tenho certeza de que ele estava lá comigo dentro do meu coração.

26.6.08

Doutor Tabacof da Bahia

O lançamento do livro Memórias de um médico de corações – uma ode ao trabalho, do decano dos cardiologistas baianos, Doutor Rubem Tabacof, ocorreu em 03 de junho de 2008, no saguão da Associação Baiana de Medicina, em Salvador. A obra chega ao público com o selo da Editora da Universidade Federal da Bahia.

O livro é a reunião de memórias do autor, nascido em 1917 na Bessarábia e que chegou à Bahia em 1924. Com 90 anos de vida - dos quais 64 são dedicados à atividade ininterrupta - encerra a vida profissional contando o que fez e como fez através dessa autobiografia. Possui um relato leve, autêntico e habilmente escrito revelando uma vida que foi difícil, árdua, com dificuldades que às vezes pareciam intransponíveis.


17.6.08

Rosenzweig

Reproduzo, a seguir, fragmentos do artigo Seu Ully sobreviveu ao holocausto, mas não à violência do Rio, escrito por Jorge Antonio Barros e publicado em 29 de maio de 2008 em O Globo Online.

O judeu romeno Ulrich Rosenzweig, de 85 anos, chegou ao Rio há 60 anos, no pós-guerra, com uma mão na frente e outra atrás. Não tinha família, não tinha ninguém. Nem sabia falar o português. Só ele, sua fé no Deus de Israel e uma resistência à toda prova. Trazia no corpo a marca da Segunda Guerra com a qual conviveu até o fim da vida - um estilhaço de granada numa das pernas, resultado de uma das escaramuças vividas como combatente do Exército vermelho, em cujas fileiras havia ingressado para escapar de um campo de concentração nazista na Ucrânia. Ou era o campo de concentração ou entrar para o Exército russo.

Logo que se estabilizou foi buscar os pais na Ucrânia e uma irmã, Netty Maidantchik, de 66 anos, que à época tinha apenas 12 anos e já era uma das prisoneiras do campo de concentração nazista em Moguilof, na Ucrânia. Quando seu Ully chegou ao Rio, em 1948, a cidade ainda não havia passado por seu grande "boom" de crescimento, pós-êxodo rural. Ele veio em companhia de alguns amigos judeus que estavam em busca de parentes, como Nathan Kimelblat, que depois fundou a joalheria Nathan. Com a profissão de vendedor ambulante ("clintelt", em iídiche, o dialeto judaico), seu Ully vendia jóias de casa em casa, pelo Centro do Rio. Mais tarde trabalhou em tudo um pouco.

Seu Ully, como era conhecido pela família e pela vizinhança do Arpoador - onde morava - era duro na queda, embora seu sobrenome em alemão signifique "galho de rosa". Ele venceu o nazismo, o comunismo, a Segunda Grande Guerra, o medo e a solidão. Só foi derrotado pela violência do Rio de Janeiro. Morreu na tarde de terça-feira passada com um tiro no peito disparado por um assaltante que acabara de roubar R$ 9.800,00 do contínuo da empresa dele.