Seu guia brasileiro exclusivo na Europa Oriental

17.2.10

Herscovici de Briceva

Transcrevo, abaixo, fragmentos do testemunho de Betty Herscovici, nascida em 1932, filha de Favel Herscovici e Mania Guelman, conforme colhido em 2008 pelo Arquivo Virtual Arqshoah de Holocausto e Antissemitismo.

Nasci em Briceva, na então Bessarábia, parte da Romênia desde a Primeira Guerra Mundial. A cidade era praticamente composta por judeus.

Levava uma vida normal, freqüentava a escola hebraica e recebia o ensino primário romeno. Uma vez, houve um pogrom dos camponeses da região. Possuíamos uma loja têxtil e éramos considerados burgueses. Temíamos ser mandados para a Sibéria. Por isso, fugimos quando os russos entraram na Bessarábia, em 1940. Ficamos um ano fora. Com a invasão alemã em 1941, minha mãe e minha irmã arrumaram uma carroça para fugirmos, eu tinha 11 anos e minha irmã Rosa, 17. Mandaram os judeus saírem da Romênia. Saímos de casa escoltados pelos gendarmes. Caminhamos cerca de seis meses. Andávamos a esmo pelas plantações de milho. Eles matavam quem não andava. Na época da colheita da batata, comíamos as batatinhas que sobravam no solo. Havia também um mingau composto de água e farinha, parecido com polenta.

Conforme um pacto entre alemães e romenos, os judeus da Bucovina e da Bessarábia deveriam ser entregues aos nazistas, para preservar os judeus da própria Romênia. Caminhávamos em direção à Ucrânia, na região do rio Dniester. Ao chegar lá, nos juntaram a centenas de pessoas que já estavam lá. Andamos até o rio Bug, e fomos deixados na Transnístria. Já era inverno e muitas pessoas morriam de inanição todos os dias; minha tia Esther morreu de tifo, teve uma febre alta e se foi. Lembro que eu ficava em um espaço pequeno no chão frio, perto da parede e, quando ela morreu, os piolhos deixaram o corpo dela, pois o sangue pára, fica frio - e passaram a subir na parede, formando uma mancha preta. Todos tínhamos piolhos, pois não havia como tomar banho.

A Transnístria era terrível. As pessoas eram deixadas ao léu, para morrer de fome. Lá encontramos um grande número de judeus de Briceva, também. Às vezes eu saía para pedir esmola aos camponeses, e minha mãe pedia comida a eles também. Ela dizia que sobreviveríamos se chegássemos até Pessach, quando seria mais quente. Nesse meio tempo, meu pai morreu de inanição; os corpos se acumulavam para serem enterrados em uma vala comum. Logo, minha irmã, que estava com a perna congelada, também morreu.

Uma noite, dormíamos em um dos galpões, quando levaram a minha mãe. Pude ouvir os seus gritos – depois entendi que ela havia sido violentada. Infelizmente, um pouco depois de Rosa morrer, minha mãe também morreu. Fiquei sozinha. Uma mulher me pegou para pedir esmolas, eu andava cerca de 3km, na lama e na neve, e às vezes conseguia algo para comer... uma batata, uma beterraba...

Eu então fui para Obodovka, cidade de judeus, onde fui acolhida na casa de Rosa Berenstein, muito importante na minha história. Nessa época, fiquei doente, tive sarna e disenteria, que foi curada com uma dieta à base de batata. A família de Rosa tinha contato com a Joint e estavam recolhendo os órfãos para emigrarem para Israel via Romênia. Fui então para Balta, mas os navios haviam sido afundados, então voltei para a casa de Rosa a pé. Nessa jornada, meu pé ficou ferido. Fiquei com Rosa Spielberg - parente de Steven Spielberg, que filmou meu relato para a Fundação Shoah - que me ajudou. Voltei para a casa de Rosa Berenstein e em seguida tentaram me levar para Balta outra vez. Com a saída dos alemães, fui para Briceva, minha cidade natal, a pé. Lá encontrei a cidade destruída e minha casa ocupada por romenos. Fui para Secureni, onde Rosa trabalhava com cereais. Nesses dois anos, fiz o ginásio em uma escola russa. Tudo isso ocorreu entre 1941 e 1944; tentei vir para o Brasil, pois tinha tios morando aqui, mas não consegui receber o visto.

Fui para Israel, pois o marido de Rosa Berenstein tinha um irmão lá. Tinha que ir para Bucareste, depois para Istambul; quando cheguei lá, não havia lugar para embarcar. Por sorte, fui confundida com uma outra moça. Foi com o nome dela que viajei até Haifa. Lá, os ingleses não nos deixaram descer; jogaram gás no deck do navio, fazendo com que desistíssemos. Assim, fiquei 3 meses em Chipre, morávamos em bangalôs do exército. Engordei um pouco e depois fui finalmente para Israel, onde conheci meu futuro marido. Casamo-nos em um kibutz e em novembro de 1947 fomos para Tel Aviv. Ficamos seis anos em Israel, até decidirmos emigrar para o Brasil, pois queríamos viver em melhores condições. Rosa nos mandou uma passagem para o Brasil, e conseguimos o visto. Assim, em 25 de janeiro de 1954, chegamos ao porto de Santos com visto de imigrante.

11.12.09

Teatro iídiche de Iasi

Em 26 de novembro, foi lançada uma emissão filatélica conjunta Romênia-Israel (imagem ao lado), dedicada a Avram Goldfaden (1840-1909), criador do primeiro teatro iídiche do mundo, na cidade romena de Iaşi.

Nascido em 1840 no vilarejo russo de Staro-Konstantin, Avram Goldfaden muda-se para Odessa em 1866, após concluir seus estudos na escola rabínica de Simferopol, onde inicia uma intensa atividade criativa como dramaturgo e poeta.

Em 1875 parte para Munique no intuito de estudar Medicina. Abandona os planos e, após uma breve estada em Cernăuţi, Golfaden muda-se para Iaşi, convidado a ser o editor de um jornal e a montar suas peças na qualidade de ator, autor, diretor e músico.

Em 19 de agosto de 1876, tem lugar a primeira representação do grupo de teatro iídiche por ele criado, que passa a realizar turnês por Odessa, Brăila, Galatz, Botoşani e Bucareste, onde ganha um palco permanente.

A partir de 1887, continua sua atividade teatral em Nova York com outros pioneiros do teatro iídiche, onde continua montando e compondo, com grande êxito, peças e musicais até a sua morte, em 1908.

Fonte: Romfilatelia

6.12.09

Briceni

Briceni (Brichon, Brichany, Бричень, Бричаны, Briceni Târg, Briceni Sat) é uma pequena cidade no norte da Bessarábia, hoje parte da República da Moldávia. (Na figura, divisão em distritos da província de Briceni, a mais setentrional da Moldávia, cuja capital é a cidade homônima.)

Em 1817, ela já contava com 137 famílias judias. Em 1897, detendo já uma das maiores comunidades judaicas da Bessarábia, Briceni abrigava 7.184 judeus, o que significava 96,5% da população.

No fim do século XIX, lá moravam 972 artesões judeus, em sua maioria peleteiros, que produziam e exportavam cerca de 25 mil casacos de pele por ano; ademais, 25 famílias judias se dedicavam à horticultura e à lavoura do tabaco, ao passo que 700 judeus eram trabalhadores diaristas.

Em 1924, lá havia 125 agricultores judeus cujas lavouras se estendiam por 64 km², parte delas arrendadas.

Em 1940, quando sua população judaica somava cerca de 10 mil pessoas, a cidade foi ocupada, junto com toda a Bessarábia, no contexto da II Guerra Mundial, por forças soviéticas, que confiscaram a maior parte dos bens particulares e da comunidade, utilizaram a sinagoga como celeiro e deportaram 80 líderes comunitários judeus para a Sibéria.

Em 1941, as tropas romenas reconquistaram a Bessarábia com o apoio do exército alemão, assassinando numerosos judeus. Judeus das cidades vizinhas de Lipcani e Secureni foram concentrados num ghetto em Briceni e, em julho, despachados para uma marcha da morte da qual poucos voltaram em 1945.

Conforme o censo de 2004, vivem hoje 8.765 pessoas em Briceni, das quais um número insignificante é composto por judeus.

5.12.09

Hotin

Numa posição privilegiada às margens do rio Dniester, Hotin (Chotyn, Chocim, Khotyn, Хотин) logo tornou-se um importante centro comercial, conhecido sobretudo pela fortaleza militar (foto), palco de sangrentos confrontos entre moldavos, turcos, austríacos e poloneses, que hoje pode ser visitada por turistas.

No passado, a cidade pertenceu ao Principado da Moldávia (1359-1812), à Bessarábia do Império Tzarista (1812-1917), à República Democrática Moldava (1917-1918), ao Reino da Romênia (1918-1940, 1941-1944) e à União Soviética (1940-1941, 1944-1991), hoje fazendo parte da região administrativa ucraniana de Chernivtsi.

Em 1897, somava 23.800 habitantes. Sua maior parte era formada por judeus e russos. É possível que os judeus tenham começado a se instalar na cidade já no século XV, a convite do príncipe moldavo Estêvão o Grande, que, interessado em desenvolver a economia do país, chamou significativas comunidades de judeus, armênios e gregos.

Após a I Guerra Mundial, Hotin se tornou a cidade mais setentrional da Romênia, a 283 km de Chisinau e a 554 km de Bucareste.

Em 1930, Hotin contava com 15.287 habitantes, dos quais 37,7% judeus, 36,6% russos, 14,8% ucranianos e 8,8% romenos. Embora industrializada, a cidade, por não estar conectada à malha ferroviária, transformou-se num centro de trocas para obter produtos dos vilarejos próximos: cereais, animais e produtos animais.

Em Hotin funcionavam 1 usina elétrica, 1 cervejaria, 1 fábrica de aguardente, 5 fábricas de óleo, 2 fábricas de confeitos, 1 fábrica de sabão, 12 moinhos, 1 pedreira de calcário, 3 fábricas de tijolos, 1 abatedouro, 7 agências bancárias, 1 hospital israelita e 17 sinagogas.

O regime soviético impôs modificações na composição étnica da cidade. Em 1959, sua população era formada por 72% ucranianos, 16% russos, 8% judeus e 4% romenos. Ao passo que a população romena foi deportada por ordens de Stalin em 1940 para o Cazaquistão, grande parte da população judaica foi exterminada durante a II Guerra.

Estima-se que em 2007 a cidade contava com 10.438 habitantes, dentre os quais cerca de apenas 10 judeus.

27.8.09

A cidade das 5 línguas

Em 25 de julho visitei novamente Cernăuţi (Чернівці, Czerniowce, Czernowitz, Tschernowitz, Chernivtsi), antiga capital da Bucovina (1775-1918), província mais oriental do Império Austro-Húngaro, atualmente, junto com Lviv, na antiga Galícia, principal centro cultural da Ucrânia ocidental. Apelidada como Pequena Viena, a cidade ainda mantém viva a atmosfera austríaca, sobretudo graças às obras realizadas para comemorar, em 2008, os 600 anos da sua primeira menção documental. Na foto [do autor], a cinegoga, como é popularmente conhecida a sala de cinema instalada no antigo prédio da sinagoga central, um dos contundentes testemunhos da antiga presença judaica.
Com o fim da I Guerra, Cernauti passou a integrar o território da Romênia. Conforme os dados do censo de 1930, dos 113 mil habitantes dessa cidade, possivelmente a mais multiétnica da Europa Centro-Oriental, 43 mil eram judeus que viviam em harmonia com romenos, alemães, ucranianos e poloneses. Mais da metade da população judaica foi dizimada durante a II Guerra pelo regime do Marechal Antonescu, em colaboração com a Alemanha nazista. Com a instauração do regime soviético em 1944, quando a parte setentrional da Bucovina passou a fazer parte da República Socialista Soviética da Ucrânia, judeus, alemães, romenos, poloneses e ucranianos foram deportados, a cidade tendo sido repopulada com cidadãos profundamente ligados à cultura russa, oriundos de diferentes regiões da União Soviética.

A população atual, conforme o censo de 2001, soma 240 mil habitantes, dentre os quais 1.300 judeus. Ao longo de sua história, a cidade acolheu e deu origem a grandes personalidades de origem judaica, tais como Rose Ausländer, Paul Celan, Joseph Schmidt, Karl Emil Franzos, Abraham Goldfaden, Nathan Birnbaum, Alfred Margul-Sperber, Wilhelm Reich e Joseph Schumpeter.

A 35km de Siret, na fronteira romena, a cidade e seus arredores constituem importante atração turística, com inúmeros monumentos históricos que testemunham seu rico passado multicultural.

14.8.09

A shtetl de Nova Sulitza

Estive no fim-de-semana passado em Noua Suliţă (Suliţa Târg, Suliţa, Novoselytsya, Новоселиця, Новоселица, Nowoselyzja, Nowosielica, Nowosielitza), na região histórica da Bessarábia, desde 1991 em território da Ucrânia independente, perto da fronteira com a Romênia, onde visitei o imenso e antigo cemitério judaico local [foto do autor].

Às margens do rio Prut, Nova Sulitza foi mencionada documentalmente pela primeira vez em 1456, tendo pertencido ao Principado da Moldávia até 1812. Com a transferência da Bessarábia para o Império Russo, sua metade oriental passou para o domínio russo, ao passo que sua metade ocidental, desde 1775, já pertencia à província austro-húngara da Bucovina.

Em 1905 foi inaugurada a estação de trem local, numa linha existente desde o último quarto do século XIX, e que se transformou no principal ponto de trânsito de couro bovino exportado para o Império Austro-Húngaro. A estação ficou famosa pelo fato de ali o célebre jornalista norte-americano John Reed ter iniciado, em 1915, sua viagem à Rússia para cobrir a Revolução Bolchevique.

Com o fim da I Guerra Mundial, a cidade passou integralmente para a Romênia e, com a II Guerra Mundial, para a União Soviética.

Em 1930, a cidade, segunda maior da província romena de Hotin e importante centro comercial, contava com uma população de 5000 habitantes, dentre os quais cerca de quatro quintos eram judeus Era servida por diversas agências bancárias, um ginásio e um hospital israelitas, uma sinagoga, uma agência dos correios e telégrafos, um liceu comercial, um ginásio industrial, um tribunal, dois cinemas e aeroporto.

Atualmente a cidade conta com pouco mais de 8000 habitantes, dentre os quais cerca de meia dúzia de famílias judias.

21.6.09

Da Bessarábia à Argentina

Quinta-feira, 18 de junho, foi apresentado em Bucareste o filme documentário De Bessarabia a Entre Ríos, do argentino Pedro Banchik, presente ao evento.

Com duração de uma hora e meia, o filme faz um resumo claro da história dos judeus desde a Diáspora, concentrando-se em sua presença na Europa Oriental, sobretudo no Império tzarista e na Romênia.

Esse instrutivo apanhado, que, além dos aspectos políticos e econômicos, aborda também a faceta cultural do povo judaico, permite a Banchik começar a contar a saga de sua própria família, que, assim como inúmeras outras, abandona a Bessarábia e chega à Argentina em 1905 graças ao programa de emigração do Barão de Hirsch, integrando-se perfeitamente à realidade nacional.