Seu guia brasileiro exclusivo na Europa Oriental

16.12.10

Delicatéssen romenas

Na edição no. 134 (dezembro de 2010) da revista Saveur acabou de ser publicado um artigo assinado por David Sax, com fotos de Landon Nordeman, sob o título Roots of Deli - no qual o autor, em Budapeste e Bucareste, sai em busca das origens autênticas de comida judaica de hoje.

Fernando também contribuiu para este trabalho, orientando e apoiando Sax e Nordeman através de sua jornada gastronômica pela Romênia. Bom apetite!

7.12.10

O imaginado e o real

O boletim no. 43 (outubro de 2010) do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro publicou o artigo, tema da capa daquela edição, intitulado Bessarábia - Havia o cenário imaginado, fomos à procura do cenário real, de autoria da psicanalista Tatiana Serebrenic, quem tive o prazer de guiar, juntamente com seu marido Jayme Serebrenic, em maio de 2010, pela Romênia e República Moldova.

Seu relato sincero, tanto objetivo como subjetivo, denota a inevitável complexidade na abordagem de uma realidade tão íntima do coração e tão distante no tempo e na geografia. A dicotomia entre os relatos de família com sua descrição de um passado pitoresco e a realidade atual - fruto de indizíveis crueldades históricas - acaba se revelando agridocemente enriquecedora para o observador perspicaz.

17.11.10

Komor e Dezsö

A mais agradável descoberta de Târgu Mures é o que me atreveria a chamar de versão magiar do Palau de la Música Catalana (1908): trata-se do Palácio da Cultura (Palatul Culturii, Kultúrpalota), edifício construído entre 1911 e 1913 - sob encomenda do prefeito György Bernády (1864-1938), que marcou indelevelmente a história da cidade com seu empreendedorismo.

O fabuloso Palácio foi concebido por dois dos maiores arquitetos húngaros da época: Marcell Komor (1868-1944) e Jakab Dezsö (1864-1932), discípulos do assim chamado Gaudí húngaro, o renomado arquiteto Ödön Lechner (1845-1914), um dos primeiros representantes da corrente Szecesszió que, embora claramente ligada à Art Nouveau e Jugendstil, em voga por toda a Europa, permitiu-se enriquecer-se, no então espaço geográfico da Hungria, com a inclusão de elementos folclóricos locais.

Outra interessante descoberta foi constatar que ambos os arquitetos - que conceberam também, sempre a mando de Bernády, o não menos fantástico Palácio da Prefeitura de Târgu Mures (1907), além de haverem assinado residências, sinagogas e diversos edifícios públicos que embelezam até hoje cidades como Budapeste, Viena, Oradea, Timisoara, Bratislava, Szeged e Суботица - nasceram no seio de famílias judaicas húngaras. Marcell Komor, filho do rabino Salamon Kohn (1828-1886), foi vítima do Holocausto.

Fotos: do autor.

16.11.10

Târgu Mures

Ao visitar a cidade transilvana de Târgu Mures (Marosvásárhely, Neumarkt), não pude deixar de admirar seu centro antigo, que ainda revela as belas marcas da corrente Art Nouveau - em voga, numa abordagem muito própria, entre os arquitetos húngaros do início do século XX - promovida nos anos imediatamente anteriores à I Guerra Mundial por seu prefeito visionário György Bernády.

Parte das importantes transformações urbanísticas que a cidade sofreu naquela época, e que haveriam de apagar sua feição ainda rural, constitui a Grande Sinagoga, por muitos considerada o mais belo templo israelita de toda a Transilvânia. Inaugurado em 1900, o edifício foi construído conforme os planos em estilo eclético do arquiteto vienense Jakob Gärtner (1861-1921).

Em 1944, sob o regime ditatorial húngaro que vigorou de 1940 até aquele ano na Transilvânia Setentrional, cerca de 7000 judeus da cidade - 15% da população - foram concentrados em guetos e em seguida deportados para a morte em Auschwitz. Ao todo, 150.000 judeus foram deportados de toda a Transilvânia Setentrional. Hoje em dia, na atual província de Mures, da qual Târgu Mures é a capital, os judeus não passam de 200.

Em 2003, as autoridades locais romenas inauguraram, numa praça central da cidade, um monumento em memória àquelas vítimas. A estátua, representando uma família abraçada, foi realizada por um dos sobreviventes da tragédia: Izsák Martin.

Fotos: do autor.

14.9.10

Mein shtetele Belz

A cidade de Bălţi (Bielce, Бельцы, Бэлць, Бєльці, בעלץ) aparece em documentos do século XV como um importante centro de comércio de cavalos: não é à toa que seu primeiro brasão exibia uma cabeça de cavalo. Aos poucos, a cidade se torna também um centro de artesãos - ferreiros, seleiros, segeiros, peleteiros. O Império Russo, que em 1812 incorpora a parte oriental da Moldávia, que passa a ser conhecida como Bessarábia, aumenta a autonomia administrativa da localidade que, uma vez ligada à rede ferroviária, se transforma num centro de coleta de cereais que são transportados para Odessa.

Devido ao desenvolvimento econômico gerado, juntam-se à população moldava numerosos russos, ucranianos e judeus. O número desses imigrantes continuou crescendo, especialmente depois da união da Bessarábia com a Romênia em 1918, por causa do afluxo de refugiados do outro lado do rio Dniester que fugiam da coletivização soviética, do Holodomor (1932-33) ou da polícia secreta do partido comunista soviético (NKVD).

Durante a II Grande Guerra, a cidade foi gravemente destruída e sofreu importantes deportações. Primeiro (1940-41), os soviéticos deportaram para o Cazaquistão e Sibéria padres e funcionários públicos moldavos que trabalhavam para o Estado romeno; em seguida (1941-44), romenos e alemães deportaram judeus - que constituíam pelo menos metade da população local e que foram confinados a um gueto - e cidadãos suspeitos de apoiarem o sistema soviético. As deportações soviéticas foram retomadas entre 1945 e 1954.

Durante o regime comunista, a cidade se transformou no mais importante centro industrial do norte da Moldávia, com uma população quase toda transplantada, formada por russos, ucranianos e camponeses moldavos.

Bălţi, que no passado foi melancolicamente evocada na famosa canção iídiche Mein shtetele Belz, de 1928, é hoje em dia a "capital setentrional" da República Moldova, sendo a segunda mais importante cidade do país e contando com uma população de quase 150 mil pessoas, das quais cerca de 400 formam a comunidade judaica local, atualmente liderada pelo Sr. Lev Bonder.

Foto (do autor): Jaime Serebrenic (SP) diante da única sinagoga restante em Bălţi, maio de 2010.

5.8.10

Gueto de Varsóvia

Minhas andanças pela capital polonesa no início de julho acabaram me levando à área em que se estendia o gueto. Numa grande praça junto à rua Zamenhof, circundada por blocos comunistas erguidos sobre os destroços amontoados das antigas casas dos judeus, vê-se o colossal monumento dedicado aos heróis do Gueto de Varsóvia, concebido pelo escultor Nathan Rappaport e inaugurado na década de 1980 pelas autoridades comunistas.

Na primavera de 1943, a insurreição do Gueto de Varsóvia foi brutalmente sufocada pelo exército nazista, que trucidou mais de 13 mil judeus durante a exitosa operação de aniquilamento dessa parte da cidade. A maioria dos 50 mil judeus restantes foram capturados e despachados para o inimaginável campo de extermínio de Treblinka.

Há quem diga que, por ironia, o material utilizado pelo escultor tenha sido previamente encomendado pelos nazistas, no intuito de construírem um monumento em homenagem à (malfadada) vitória alemã.

A poucos metros do trágico memorial, atrás de tapumes, vê-se a construção em andamento do ambicioso Museu da História dos Judeus Poloneses, que deverá abrir suas portas ao público em 2012.

Na praça que abriga o colosso de Rappaport, salpicada por pequenos monumentos em mármore negro que se estendem pelas ruas adjacentes e que comemoram, em polonês e hebraico, diferentes personalidades, lugares e momentos dessa história macabra, idosos gorduchos e bem-dispostos sentavam-se sossegados nos bancos sob o sol do fim-de-semana, enquanto moradores do bairro passeavam satisfeitos seus cachorros por cima dos escombros enterrados, por entre fantasmas cujos gritos lancinantes guiavam meus passos.

Fotos: do autor.

3.8.10

Dossiê Judeus

A edição número 58, de julho de 2010, da Revista de História da Biblioteca Nacional publicou um interessante "Dossiê Judeus no Brasil", constituído por artigos de diversos especialistas que versam sobre a rápida integração dos cristãos-novos vindos de Portugal no século XVI; os judeus expulsos do Recife, que acabaram fundando uma nova comunidade em Nova York; a restrita liberdade dos judeus e a manutenção de suas tradições durante o Império; e sobre o controle da entrada de estrangeiros no Brasil do Estado Novo, que classificava os judeus como imigrantes indesejáveis.