Seu guia brasileiro exclusivo na Europa Oriental

27.6.11

Oisiovici

Em fevereiro de 2011 tive o prazer de guiar o baiano Levi Oisiovici pelos principais locais da herança judaica em Bucareste, antes de sua viagem a Iasi, cidade de seus antepassados. Lá ele conseguiu localizar túmulos de parentes e até mesmo a casa onde morou sua família antes de se mudar para o Brasil em 1937. 

Em Bucareste, ele também se reuniu com membros da comunidade judaica local e se encontrou com um primo de cuja existência soube há poucos anos. Embora a Romênia tenha se tornado sua nova paixão, a paixão mais antiga de Levi são os curiós que ele cria com atenção e carinho em seu viveiro de Campinas.

26.6.11

Fantasmas de tijolo

No início de março de 2011 voltei a Czernowitz. O alfabeto cirílico, as marcas da União Soviética no quotidiano, visíveis em automóveis e interfones, a preocupação do povo sofrido em se agitar para ter o que comer no dia seguinte - tudo isso contrasta com a arquitetura do centro da cidade, heranças austríaca e romena, como se aquele cenário não tivesse absolutamente nada a ver com a peça que está sendo ora representada.

Fora a minoria romena, que deplora ainda hoje, em surdina, a perda da Bucovina setentrional e sua capital Czernowitz para a então República Socialista Soviética da Ucrânia no fim da II Guerra Mundial, o resto da população não parece estar consciente - e deveria estar? - de habitar lugares que outrora constituíam talvez a mais cosmopolita das cidades do Império Austro-Húngaro, de inigualável efervescência cultural.

Encontrei a Grande Sinagoga [foto acima], construída na primeira metade do século XIX em estilo típico da Galícia, no centro do antigo bairro judaico, na atual rua Henry Barbusse, albergando um ateliê de portas e janelas e outros pequenos negócios em seu quintal, como por exemplo o comércio de cruzes para cemitérios. O atual proprietário parece estar tratando bem do imóvel na medida do possível, tendo inclusive mantido uma inscrição em hebraico descoberta por cima da entrada principal. Desde 1865, quando o bairro judaico foi consumido por um incêndio, a sinagoga gerou várias lendas a respeito de seu poder miraculoso ao sair ilesa em meio às labaredas.

Atrás dela encontram-se as ruínas de um hospital judaico [foto ao lado] construído na década de 1930 graças à doação do famoso tenor judeu-alemão Joseph Schmidt, nascido na Bucovina em 1904.

10.3.11

Em Kamenets da Podólia

Kamenets da Podólia (Кам’янець-Подільський em ucraniano, Камене́ц-Подо́льский em russo, Kamieniec Podolski em polonês, Cameniţa Podoliei em romeno, Kamaniçe em turco, Camenecium em latim, Kamenyeck-Podolszk em  húngaro, קאָמענעץ em iídiche) é uma cidade hoje de quase 100 mil habitantes. Seu coração, entretanto, se restringe a uma pequena área determinada por um desenho em forma de ômega que o rio Smotrych imprime ao relevo, formando uma garganta de 40 metros de profundidade. 

Embora mais da metade do centro histórico tenha sido destruído durante os embates da II Guerra Mundial, a cidade ainda tem muito a oferecer, sobretudo do ponto de vista arquitetônico, do seu movimentado passado de bastião oriental do Cristianismo, em que procurou deter o avanço dos mongóis, na Idade Média e, mais tarde, dos tártaros e dos turcos otomanos, estes últimos tendo capturado e dominado a cidade nas últimas décadas do século XVII - deixando, entre marcas diversas, um minarete colado à catedral católica [foto]. 

Judeus, armênios, poloneses e ucranianos, dentre outros povos, marcaram a sua paisagem e o seu desenvolvimento, conferindo-lhe um caráter multiétnico até a II Guerra Mundial, quando a cidade se deparou com o extermínio da população judaica por parte dos nazistas - o cemitério israelita local comporta uma vala comum daquela época - e com a deportação de poloneses e ucranianos por parte dos russos.

No início do mês de março, faz muito frio na cidade, um frio umedecido pelas águas do rio e endurecido pelas pedras centenárias, por cima das quais, apesar do gelo e da neve, parece que ainda se pode ouvir o escorrer de todo o sangue vertido no passado. Enfrentando um cortante vento gelado, o excelente guia Maxim me mostrou sinteticamente a cidade medieval, deixando a fortaleza para uma ocasião de temperaturas mais altas. Terminamos nosso passeio bebendo chá e comendo panquecas recheadas com sementes de papoula e com cereja num restaurante - que funciona no prédio da Sinagoga dos Alfaiates, única que restou em pé em Kamenets [foto], ao lado de um bastião da muralha medieval que dá para o rio.

27.1.11

Mayn shtetele Soroke

Soroca (Сороки em russo, Сороки em ucraniano, Soroki em polonês, םאָראָקע em iídiche) é capital de distrito homônimo e porto no rio Dniester, na atual República Moldova. A primeira referência documental à localidade data de 1499. Foi sede de uma das mais antigas comunidades judaicas da Bessarábia. Os mais antigos túmulos judaicos são do século XVI. A sinagoga principal foi construída em 1775. Em 1772, uma dúzia de famílias judias (de um total de 170 famílias), vivia em Soroca.

Situada numa das áreas mais férteis do mundo, de tchernoziom, Soroca - que passou a pertencer à Rússia em 1812 - tornou-se um centro de rápido crescimento dos assentamentos judaicos desde a criação das primeiras colônias agrícolas judaicas em 1836. Em 1817, 157 famílias judias viviam em Soroca, em 1847 havia 343; em 1864 havia 4135 e, em 1897, havia 8783 (representando 57% da população). Considerada em 1861 um dos principais centros de atividade agrícola judaica na Rússia, Soroca e seus assentamentos agrícolas periféricos produziam tabaco, uvas e diversas outras frutas.

Em 1900, no auge da vida judaica em Soroca, a cidade contava com 17 sinagogas. A emigração, porém, principalmente para os Estados Unidos e Argentina, começou com a aprovação das leis restritivas de maio de 1882 do tzar Alexandre III e com as dificuldades econômicas resultantes. Em 1930, a cidade tinha 5462 judeus (36% da população).


Quando as forças alemãs e romenas entraram em Soroca em julho de 1941, iniciou-se a aniquilação sistemática dos judeus. Um campo de concentração foi criado nas adjacências, em Vertujeni, onde 26 mil judeus foram presos. De setembro até o final de dezembro de 1941, os sobreviventes foram deportados a pé para campos na Transnístria. Muitos foram mortos ou morreram de fome e exaustão durante o caminho. Poucos sobreviveram à guerra.

Estima-se que, após a guerra, talvez houvesse 1000 judeus em Soroca. Cerca de 200 judeus viviam lá em 2004.

Na década de 1990, Arkady Gendler, um nativo de Soroca, escreveu a canção Mayn shtetele Soroke.

Fonte: artigo Soroca, de autoria de Wolf Moskovich, publicado na YIVO.

20.1.11

Rússia a cores 100 anos atrás


O Boston Globe nos convida a olhar para o passado com uma extraordinária coleção de fotos coloridas tiradas na Rússia entre 1909 e 1912. Naqueles anos, o fotógrafo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii (1863-1944) realizou um levantamento fotográfico do Império Russo, com o apoio do czar Nicolau II. Ele usou uma câmera especial para capturar três imagens em preto e branco em sucessão rápida, utilizando filtros vermelho, verde e azul, que mais tarde podiam ser recombinadas e projetadas de maneira a revelar um colorido muitíssimo próximo da realidade. A alta qualidade das imagens, combinadas às cores brilhantes, faz quase duvidar que se trate de imagens de 100 anos. Confira aqui a coleção de fotos, disponibilizada pela Biblioteca do Congresso dos EUA, que adquiriu as placas de vidro originais em 1948. também imagens relacionadas à herança judaica local, como a de cima, retratando crianças judias com seu professor em Samarcanda (atual Uzbequistão), em torno de 1910.

Fonte: The Boston Globe

6.1.11

A Bessarábia de Ghivelder

Sugiro a leitura do interessante artigo Bessarábia, era uma terra doce e bonita..., de autoria de Zevi Ghivelder, publicado em 10/04/2010 no website da Sinagoga Adat Ischurum, cujo breve fragmento abaixo reproduzo. A versão integral pode ser acessada aqui.

A Bessarábia, hoje República Moldova, teve a pouca sorte de ter seu território de 34 mil quilômetros quadrados (pouco menos do que o estado de Alagoas), ladeado pelos rios Dniester e Prut, ou seja, localizado entre a Romênia e a Ucrânia, dois assumidos bastiões do anti-semitismo no leste europeu e que inclusive se aliaram aos nazistas durante a 2a Guerra Mundial. A presença judaica naquelas paragens, então chamada de Moldávia, é assinalada por volta do século 16. Os judeus se dedicavam ao pequeno comércio, mas, assim que alcançaram algum progresso em suas atividades, foram expulsos para a Galícia, na Polônia, e para a Podólia, no sudeste da Ucrânia. Em meados do século 18, os judeus tentaram novamente se radicar na Moldávia, tendo como principal ocupação a travessia de pessoas e cargas através do rio Dniester. Mais uma vez foram expulsos. Só retornaram no século seguinte, depois do conflito entre a Rússia e a Turquia. Como vencedor, o império russo anexou o território denominado Bessarábia. Em 1818, foi editado um decreto segundo o qual os judeus ficavam proibidos de possuir qualquer tipo de terra para fins de agricultura, mas podiam comerciar variadas mercadorias e operar moinhos de trigo. Um censo do ano anterior apontava a existência de cerca de 19 mil judeus na Bessarábia, correspondendo a 4,2% do total de seus habitantes.

20.12.10

Pousada em Draguseni

Nossa pousada em Draguseni foi objeto de um belo artigo publicado no número 107, edição de novembro de 2010, da renomada revista romena de arquitetura Igloo, assinado por Reka Tugui Rozsnyai, com fotografias de Serban Bonciocat, que pode ser acessado aqui. Abaixo, segue a tradução do artigo originalmente em romeno:
 
A moradia rural era sinônimo, até há pouco tempo, de tradição, com o perpetuamento de certos modelos consagrados. Tais modelos, aceitos por comunidades inteiras, eternizaram-se de uma geração para a outra sem inovações significativas, adaptando-se apenas às condições particulares de cada família. Recentemente, entretanto, o ambiente rural da Romênia tem conhecido uma transformação cada vez mais acelerada, uma época em que os modelos do passado vêm perdendo terreno em favor de exemplos alheios e, na maior parte das vezes, agressivos e estridentes. A maior parte dos habitantes do meio rural hoje preferem materiais modernos, como por exemplo o concreto, blocos de concreto, PVC, inox ou vidro, existindo porém casos isolados que remetem ao passado, assim como aconteceu com o brasileiro Fernando Klabin, que construiu, em letra e espírito, uma casa tradicional no encantador vilarejo de Draguseni, na província de Suceava.
  
Tudo partiu do desejo de oferecer aos visitantes da Moldávia a mais autêntica atmosfera possível, e do fascínio que Fernando Klabin tem pelo folclore romeno. O lugar não foi escolhido por acaso: sua esposa, oriunda de Suceava, detinha um vasto lote de terra em Draguseni, que no passado pertencera a seus avós paternos. De posse do terreno, o casal Klabin decidiu construir ali uma casa, exatamente como outrora costumavam fazer todos os habitantes da região. Como modelo para a nova construção, foi escolhida uma residência das vizinhanças, de proporções harmoniosas e detalhes notáveis. Para o exterior, eles seguiram de perto as suas proporções e a sua estética e, no que toca ao interior, apelou-se à compartimentação clássica da casa tradicional. Assim, a habitação apresenta um longo aposento no meio, do qual se acessam diretamente os quartos situados em ambos os lados. Como o telhado da parte de trás da casa é inclinado, exatamente como era a praxe de outrora, na parte de dentro foi possível decorar outros dois quartos. A área do aposento central ficou aberta até o fundo, onde foi instalada uma pequena cozinha de apoio para os turistas. A única modificação imposta à repartição clássica do espaço foi o corredor de acesso aos banheiros, para que eles não comunicassem diretamente com a parte central da casa. Os banheiros são extremamente modernos, no intuito de oferecer aos turistas todo o conforto necessário. Ademais, tendo em vista que o banheiro tradicionalmente não fazia parte da habitação rural, esse espaço não tinha como ser organizado de maneira tradicional.

Não só a aparência da casa de Draguseni respeita a tradição, como também sua estrutura e seu material. Ela foi inteiramente construída com materiais e técnicas tradicionais, algo nada simples de realizar, pois, assim como afirma o proprietário, o processo “envolveu uma batalha prolongada com a mentalidade das pessoas”. Os habitantes locais não eram capazes de compreender por que alguém desejaria construir uma casa assim como faziam seus avós, justamente hoje em dia, com inúmeras alternativas à mão. Só depois de terem substituído umas três equipes, eles conseguiram concluir o projeto, com toda a estrutura de vigas de madeira dispostas em dois estratos e recheada com uma mistura de argila com palha. Outro material que criou problemas foi a telha de madeira para o telhado da casa. Após buscas prolongadas, eles conseguiram encontrar em Bogdanesti, um vilarejo das redondezas, uma viúva que ainda mantinha as telhas guardadas por seu marido há aproximadamente 20 anos. No que concerne ao sistema de aquecimento, a casa foi dotada com fornos tradicionais de lenha, construídos por um artesão do vilarejo de Radaseni, que, por sua vez, foi difícil de encontrar. Para a sua execução, os proprietários contaram com os conselhos de uma amiga do Museu do Vilarejo de Suceava, que lhes desenhou a forma e os nichos. Todos os elementos em madeira, inclusive a varanda, cujo desenho foi inspirado no da casa dos avós da Senhora Klabin, foram executados, num único inverno, por um artesão carpinteiro de Suceava.

A intenção do proprietário da casa era a de essencialmente criar um espaço especial apenas por meio do modo de construir, para em seguida populá-lo com diversos objetos destinados a evocar a História local. Cada objeto da casa tem sua própria história, todos tendo sido reunidos ao longo do tempo, seja junto a parentes ou amigos, seja adquiridos em diversas feiras. Eles são complementados, de maneira feliz, por alguns elementos de madeira resgatados da casa dos avós, elementos que decoravam outrora a varanda e as janelas da antiga casa, e que agora foram colocados do lado de dentro, por cima da porta de entrada e de algumas janelas. Cumpre lembrar o gesto do vizinho que, ao visitar pela primeira vez a casa camponesa do brasileiro, ofereceu ao casal Klabin alguma peças antigas de seu patrimônio. Assim, não surpreende o fato de que os moradores locais tenham se acostumado a chamar esse lugar de “museu”.

As mesmas pessoas que no início punham obstáculos ao processo de resgate da arquitetura camponesa empreendido pelo casal Klabin em Draguseni ficaram encantadas com o resultado ao verem a casa concluída, o que nos garante ainda existir esperança para a imagem do vilarejo tradicional romeno.